
Mariana nasceu em uma pequena vila de pescadores a beira do rio Juruare. Vivia na simplicidade observando dia e noite o outro lado do rio, sonhando com o momento que lá estaria.
Enquanto ela crescia os moradores e amigos a sua volta iam se findando, todos em busca de uma vida melhor, longe dali ou talvez, apenas, do outro lado do rio.
Aos onze anos, Mariana viu a moradora que mais amava partir também, essa sua mãe querida, que partiu de vez para o céu, após o ataque de uma cobra venenosa.
Mariana ficou com sua avó e com alguns moradores que aos poucos desapareciam para não mais voltarem.
Em pouco tempo, só restaram na vila, Mariana e sua avó.
Tudo que ela queria era estar do outro lado do rio. Passava horas e horas observando a outra margem, se imaginando em um lugar diferente, cheio de alegria, de outras pessoas, de garotas como ela.
Mas Mariana se via presa a margem de cá. Como ir embora e deixar sua avó. Como enfrentar o mundo desconhecido fora do vilarejo. Logo, os sonhos de ter uma vida diferente davam lugar a angustia de estar fadada a terminar seus dias sozinha naquele lugar.
Foi em um por do Sol que Mariana avistou do outro lado, uma garota dos cabelos longos e negros que também a observava. À vontade de atravessar o rio aumentou ainda mais.
Os dias se passaram todos premiados com o encontro das duas. Uma de um lado, a outra do outro lado. Mariana começou a mirabolar planos para poder atravessar o rio em busca da garota dos cabelos negros.
Ela se esforçou, trabalhou muito em algo que pudesse a conduzir para a outra margem e, quando tudo parecia pronto para partida, Mariana se lembrou de sua avó, aquilo apertou seu coração que se encheu de medos e inseguranças, ela pensou em esperar mais um pouco para então partir de vez.
A garota de cabelos negros, já cansada de esperar, virou as costas e desapareceu para sempre.
Mariana se pos a chorar todos os dias, encheu ainda mais o rio com seu sofrimento que transbordava.
Alguns anos se passaram e quando Mariana pensou não mais sentir alegria, eis que surgi do outro lado do rio uma moça do sorriso mais lindo que Mariana já tinha visto.
Todos os dias elas se encontravam, uma de um lado, a outra do outro. Mariana voltou a sorrir e a acreditar na felicidade.
Como Mariana não tinha forças para atravessar o rio, a moça do sorriso lindo resolveu que viria ao encontro de Mariana do lado de cá do rio.
E foi o que aconteceu, a moça veio, mas com a promessa de que Mariana em breve atravessaria o rio de volta juntas, em busca de uma nova vida.
O tempo passou e Mariana não apresentava nenhum sinal de que iria cumprir sua promessa de atravessar o rio. A moça do sorriso lindo começou a entristecer-se dia a dia, a entediar-se cada vez mais, mas Mariana não entendeu o porque da moça estar diferente e somente adaptou-se as novas condições, sem mudar ou satisfazer a vontade da moça, que no fundo, era sua própria vontade, sufocada por uma incapacidade de agir.
Tudo parecia estar devidamente adaptado e indo bem, mas Mariana começou a observar o outro lado do rio novamente, tinha uma mistura de vontade e medo que tomava conta do seu coração e ela se sentia incapaz de atravessar, mesmo achando que isso seria necessário para que seus sonhos e planos se realizassem.
Em uma manhã de Sol ardente, Mariana avistou do outro lado uma garota diferente, linda, faceira e que ela poderia jurar já ter habitado seu sonho antes. Ela se admirou, seu coração bateu forte demais, foi como se a garota lhe jogasse um feitiço. O encantamento foi imediato.
Mariana tinha vontade de atirar-se no rio atrás da linda garota, mas além de todos seus medos e responsabilidades, seu coração dizia que não poderia magoar assim, a moça do sorriso lindo.
Seu coração então se dividiu e partido começou a sangrar de dor.
Sem saber como agir, Mariana parecia enlouquecer em busca de uma solução. Fez tantas coisas erradas que ficou impossível concertar os estragos.
A garota do outro lado do rio partiu, mas aquela imagem nunca mais saiu de sua mente, nem de seu coração. Mariana, então, se revoltou com tudo que a prendia do lado de cá do rio, sem imaginar que a única coisa que a deixava estática era ela mesma.
Os dias se tornaram impossíveis e a garota do sorriso lindo, percebendo tudo que estava acontecendo, sentindo a incapacidade de Mariana e a dela mesma de mudar os fatos, decidiu também partir.
Antes de ir, num último esforço ainda pediu, insistiu, gritou para que Marina atravessasse o rio com ela, como havia prometido tantas vezes, como elas vinham planejando juntas a anos, como elas sonhavam todos os dias.
Mariana mais uma vez se sentiu fraca, incapaz, dividida e deixou a moça do sorriso lindo partir também, enchendo assim seu coração de uma dor nunca antes sentida.
Foi em meio a tamanho sofrimento e pensamentos fortalecidos que Mariana despertou e decidiu que atravessaria o rio. Não por ninguém, mas pelo simples fato de que era isso que sempre sonhara, era estar do outro lado que ela queria desde menina. Claro que seus medos tomaram conta de tudo novamente, mas dessa vez ela estava decidida, faria algo por ela, porque era isso que ela escolhera fazer, era assim que acreditava estar em busca da verdadeira felicidade.
Planejou, se programou, respirou fundo e colocou os pés nas águas geladas e revoltas do grande rio e, partiu. Não foi nada fácil a travessia, o frio da solidão, a correnteza puxando de um lado para o outro, a saudade, as inseguranças. Mas enfim, Mariana chegou do outro lado. Ela abriu os braços e sentiu cada gota de chuva que caia do céu cheio de trovoada, fechou seus olhos e agradeceu.
Os próximos passos ela não sabia como dar, nem como seriam, nem o que encontraria a sua espera. Ainda trazia uma grande dor no seu coração e as angustias que tudo que é novo pode trazer, mas ela estava feliz, conseguira atravessar sozinha o rio e, agora, sabia que poderia ir e vir quantas vezes fosse necessário.
Se Mariana reencontrará a moça de sorriso mais lindo, a que lhe enfeitiçou, ou outras garotas como ela, isso ela não sabe. Se é realmente desse lado do rio que está o caminho da felicidade, impossível saber sem antes de trilhá-lo, mas agora Mariana tem uma certeza: Ela pode atravessar tantos rios quanto aparecerem em sua vida.